
Eu acredito que muitas pessoas vão contar histórias da época da pandemia porque foi um momento marcante principalmente para os profissionais da área da saúde.
O medo de atender os pacientes com Covid-19 foi muito grande no início, a gente tinha medo de se contaminar e eu ficava com a sensação que tudo estava cheio de vírus, eu tinha medo de andar porque via Covid-19 no chão, parecia que brilhava, tinha luz, uma luz fluorescente. Todo lugar que eu olhava eu via Covid.
Uma história que me marcou bastante e que me fez crescer como profissional na pandemia foi quando eu atendi o telefone no posto de enfermagem e, do outro lado da linha, ouvi uma filha falar:
– Têm dias que eu não vejo a minha mãe, ela é muito idosa, não sei o que está acontecendo direito com ela e gostaria de vê-la.
Na agitação do plantão, com muitas intercorrências, código azul, pacientes graves e eu, sem tempo e sem paciência para escutar essa filha, respondi para ligar amanhã e conversar com alguém do Serviço Social para organizar a visita.
Tchau e desliguei o telefone.
Quando deu cinco horas da manhã, a mãe dela faleceu. Antes sequer de eu passar o plantão…
Eu fico muito emocionada com essa história. Eu poderia ter escutado um pouco mais ela, né? Eu poderia ter ido lá no quarto e dado um jeito de ela ver a mãe, mesmo que por videochamada… Mas não dei essa oportunidade e ela não viu mais a mãe.
Depois desse episódio, eu mudei.
A pandemia, acredito que ela transformou todos os profissionais de saúde, mas, falando por mim, hoje sou outra profissional: me sinto mais humana e com uma escuta mais ativa. Tenho orgulho de ter sido linha de frente, de ter participado da abertura do primeiro setor Covid-19 no Hospital Célio de Castro e do fechamento do último setor. Tenho muito orgulho mesmo.
Eu me lembro quando a gestão da época me pediu para pensar em tudo que seria necessário para atender um paciente mais grave dentro da ala de internação, ou seja, na enfermaria. Era um momento de alta demanda por vagas no CTI e o Hospital Célio de Castro criou as salas de estabilização.



Recordo de ter entrado dentro de uma enfermaria, a que seria a primeira sala de estabilização do hospital, leito 737. Fechei a porta por um momento e olhando aquela sala com duas camas e somente eu. Fiquei parada pensando o que precisava ter ali para atender um paciente que eu também não sabia o que iria precisar porque ninguém mais também sabia…
Hoje parece uma coisa muito óbvia, mas na época não era. Bom, vou atender um paciente com insuficiência respiratória, preciso então de um respirador, certo? Mas naquele momento não era óbvio para ninguém porque nem sempre era só o respirador que precisava…
Isso me comoveu bastante porque eu fiquei pensando:
– E se eu me esquecer de colocar alguma coisa dentro dessa sala e na hora de um atendimento, alguém precisar? Onde vou buscar? Era minha responsabilidade montar aquela sala, poderia custar a vida de um paciente.
Fiquei por lá uns 30 minutinhos olhando aquele quarto e pensando tudo que tinha que colocar ali dentro. Olha, mesmo depois de planejar tanto, parecia que sempre faltava alguma coisa porque sempre tinha algo novo. E aí era aquela correria atrás da coisa que faltava.
A criação dessa sala também me marcou bastante e, depois dela, nós abrimos em todos os andares e o trabalho foi ficando mais fácil com os aprendizados.
Fui uma das primeiras enfermeiras que recebeu os primeiros pacientes com Covid-19 e tive pânico igual todo mundo quando recebeu essa notícia de que o Hospital Célio de Castro seria referência para a doença. Minha família me questionava bastante: – Mas você vai continuar trabalhando? A resposta era sempre a mesma: – Eu preciso, tem que ter alguém lá para cuidar desses pacientes.
O maior desafio nem foi atender o primeiro paciente, o maior desafio foi lidar com o medo da equipe. Eu era a enfermeira daquele setor com vários técnicos, uma referência no plantão, mas também tinha medo. Só que era preciso me segurar porque eu tinha que passar segurança para a equipe.
Nessa época eu trabalhava em dois hospitais e passava 60 horas fora de casa. Quando chegava em casa era tipo um evento!
Durante toda a pandemia eu trabalhei na linha de frente de dois hospitais diretamente com os pacientes de Covid-19. E todos os dias após o atendimento a um paciente eu tinha a certeza de que naquele momento eu tinha me contaminado com a doença. Mas não me contaminei, eu não peguei Covid-19 durante a pandemia, durante todas as ondas, em momento nenhum.
Fazia vários plantões, um atrás do outro, mas tomava banho nos hospitais antes de ir para casa e quando chegava ia direto para o banheiro para um novo banho. A sensação era de que eu estava sempre suja, sempre contaminada. Tirava o sapato, colocava numa bolsa e aquele sapato era exclusivo, ficava dentro do carro, então aquele sapato nem saía do meu carro.
Era uma rotina muito louca de todas as roupas lavadas separadamente, minha filha vinha querendo me abraçar e, não, não, não, só depois do banho. Minha família só podia chegar perto de mim depois que eu tivesse saído do banheiro e, mesmo assim, só depois de um tempinho dentro de casa é que tinha a sensação de que estava limpa. Cabelo escovado nunca mais, foram dois anos sem escovar cabelo, não dava para se arrumar, não conseguia tempo para fazer uma unha. Esses rituais de beleza se foram… E eu deixei de fazer escova progressiva na pandemia e manter os cachos!
Quando veio a informação de que os profissionais da saúde iam começar a receber a vacina da Covid-19 e o Hospital Célio de Castro foi um dos primeiros, tive uma sensação tão grande de alegria porque a gente sabia que a pandemia ia durar muito tempo, e passamos a nos sentir protegidos pela primeira.
Eu me orgulho muito de poder ter tido essa experiência porque a pandemia, apesar de todo seu lado ruim, transformou os profissionais da saúde, hoje nós somos outros!
Suely Medeiros