
Para mim, trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS) significa pensar uma relação entre seres humanos mais harmoniosa, significa pensar em encontrar estratégias que possam atingir cada pessoa na sua necessidade.
Por isso, são muitas as histórias que me marcam quando eu penso em assistência, são muitos encontros. Encontros de humano com outro ser humano e meu intuito sempre foi de compreender quem é a pessoa que está ali do outro lado.
Quando a gente pensa em cuidados paliativos, a gente automaticamente pensa em família, em trabalhar não só o sofrimento do paciente, mas também o sofrimento da família.
E quando eu chego para uma paciente e pergunto para ela “Quem é sua família?” e ela me responde que a família dela é um cachorro, isso me marcou muito.”
– Meu Deus como eu vou entrar com um cachorro dentro do hospital?, pensei.
Era 2023 e não existia a lei que permite a visita de animais de estimação de pequeno porte aos tutores internados nos hospitais de Belo Horizonte.
Eu tinha que viabilizar esse encontro porque era o que ela tinha. A minha paciente era uma mulher em situação de rua com seu cachorro que vivia também na rua.
– Nilson, ele é meu único familiar há 15 anos, eu só tenho ele e ele só tem a mim, eu acho que vou morrer e preciso de encontrar meu cachorro.
E foi aí que entrei em contato com o consultório de rua que sinalizou:
– Nossa, isso é quase impossível!



E foi uma outra pessoa em situação de rua que, infelizmente, não tive oportunidade de conhecer, a peça fundamental dessa história.
Mais tarde eu fiquei sabendo que ele correu atrás do cachorro por vários dias. Quando ele chegava perto, o cachorro subia a ladeira e desaparecia. Isso por muitas vezes até que ele conseguiu capturá-lo, ligar para o consultório de rua que se responsabilizou pelo pet e me enviaram uma foto para que eu pudesse confirmar a identidade com a minha paciente.
Para essa visita acontecer, o cachorro precisava de condições mínimas para entrar no hospital: vacinas em dia, banho, passagem pelo veterinário…
Eu também conheci uma pessoa da Pastoral de Rua que, a melhor palavra para defini-la é iluminada. Ela me disse assim:
– A gente trabalha com poucos recursos, mas eu vou vender muitas latinhas. Com o dinheiro, vou levar o cachorro no veterinário.
Trabalhar no SUS é isso quanto mais você entra na história de um paciente, mais vai tento acesso a outras histórias, histórias que são maravilhosas.
Chegou então o grande dia.
Na hora que a paciente chegou no pilotis – um local de convivência do hospital -, o cachorro pulava de alegria. Pulou no colo dela, começou a lamber, ela o abraçou, olhou para mim e disse:
– Era esse o abraço que eu estava precisando.
Antes de ela falecer, deixou uma carta escrita dentro de uma gavetinha em que escreveu assim para mim:
– Gratidão por ter visto meu familiar.
É isso tudo!
Trabalhar no Sistema Único de Saúde significa pensar na possibilidade de uma qualidade de vida diferente para os nossos pacientes, significa pensar uma relação entre seres humanos mais harmoniosa, significa pensar em preocupar em cobrar estratégias que possam atingir cada pessoa na sua necessidade.
Quando você é capaz de possibilitar a realização de um sonho no final de vida de uma pessoa isso me ressignifica enquanto profissional, isso me atribuiu vários sentidos enquanto ser humano. Costumo dizer que eu mais aprendo do que ensino com os meus pacientes.
Essa história é marcante porque ela me faz repensar sobre a minha própria existência. Quais são os tipos de laços, os tipos de vínculos que eu tenho conseguido formar?
Eu gosto de lembrar também que o trabalho dentro de um hospital nunca é feito sozinho. O nosso trabalho é sempre em rede. Eu preciso de uma rede de apoio para me ajudar a sustentar esse tipo de encontro e de história.
Nilson Prado.